terça-feira, 24 de novembro de 2009

Da vida

Há coisas que se sentem inevitáveis. No entanto, há algo que é realmente inevitável. Não nos deixa, e não nos dá a possibilidade de escolha. Vem, quase sempre quando não se quer. Vem, na maioria dos casos, sem aviso prévio. E depois, vai embora e, quando não nos leva consigo, deixa-nos o vazio. Como hoje. Ali estava ele, deitado naquela cama de hospital, naquele quarto de tons quentes. Ladeado pelas duas mulheres que lhe seguravam a mão. Como se o toque pudesse ter um qualquer poder reparador. E tinha. E tem. E teve. No meio da sua reacção, o espanto. Olhava-me incrédulo como que a pedir que lhe dissesse que não, que não era verdade. Não fui capaz. Não podia, ainda que o quisesse. E queria muito. As lágrimas corriam-lhe, dançando ao longo das bochechas coradas, evitando todo e qualquer obstáculo que se lhes colocasse pelo caminho. As mulheres que o ladeavam mantinham as mãos coladas às suas. Ele agradecia e, olhava para mim. Não parava de olhar para mim, suplicando-me com aqueles grandes olhos castanhos. E eu ali permaneci. Sem lhe poder dar a resposta que ele queria ouvir.

1 comentário:

Joaquim Lucas disse...

Sim, mas regressaram as palavras a este blogue. Pela sensibilidade e colorido com que as pintas, obrigado. Ainda que pintes a Primavera, ou, como me parece acontecer neste caso, o Outono. Da vida.